página na revista de literatura arte etc Germina
http://www.germinaliteratura.com.br/constanca_lucas.htm
poemas e desenhos de Constança Lucas
design gráfico da página: revista Germina

 

 

 

 

do outro lado do vidro

 

 

Pela janela, um rubor de nuvem,
alguém sem articulação, rabisca,
do outro lado do vidro, lá em baixo
observo-o como quem não entende

Sinto falta de mais árvores
a calçada tem um dono
que não gosta das folhas
e o rapaz rabisca como quem marca
um território fictício

 

 

 

 

as mãos

 

 

ardes em febre de eletricidade
por esconderes almas
de ti e por ti desenho
contigo aprendi a desejar
o que só dentro de mim existe
as palavras crescem,
em teus dedos amáveis
para depois esquecermos
o silêncio triste

 

 

 

 

 

 

 

pedras que nos cercam

 

trazia nos bolsos um punhado de pedras

acariciava cada uma delas, deu-lhes nomes

mas sempre se esquecia qual era qual,

ficaram nos bolsos até o tecido ceder

o teu nome foi com uma delas

as letras escritas na memória

sabem ao teu olhar, transformador de riachos

 

 

 

 

 

não me habituo

 

Vejo-te dentro de mim

inventei-te em dias dourados

caminhas nas minhas almas divididas

não sei do que são feitos

os meus amores

mas sei que não me habituei

a saber dar-te um abraço

que ficasse para sempre

sacudo-me, torço-me,

espero os ventos, afasto os dias

não sei do que se trata

a realidade lá fora

mas sei que não me habituei

 

assim sabendo sem saber

vou falando o que o meu peito grita

a minha voz aquecida tenta

não sei da cor

na amargura do tempo

mas sei que não me habituei

nos meus desenhos

as canções soam

em ritmos atávicos

não sei se existes

mundo de cantares solidários

mas sei que não me habituei

a esquecer-me de ti

 

 

 

 

 

tens sido

 

Tens sido um ás nessa de protocolos

acho que me contagiei

Vales pelos sorrisos provocados

pelas tuas e pelas minhas palavras

não de entrelinhas, sem linhas mesmo

cada palavra escrita

talvez não fossem nunca ditas

Vales pelas provocações

dos conhecimentos de mundos

onde o convencional perde lugar

mas está presente

Vales pelo pedaço de coração

que roubastes

sem saber onde o colocar

anda no firmamento

Vales assim nesta amizade

que sem tempo vive

sem lugar cresce

com carinho segue

Vales pela liberdade

de conhecer e não concordar

Vales pela diferença

num mar de águas comuns

Valho por assim sentir,

mesmo assim saber dizer-te

sem medos demasiados

mas com a vida pulsando

neste mundo tão torto

Oiço is a beautiful day

de bem com os meus sentimentos

saberás dizer-me mais de ti sem protocolos

 

 

 

palavra

 

Perdi-te sem nunca te saber
envelhecemos os sons
cansada de maus usos
embarcou para terras velozes
não soubemos cochichar
nos abraços que ardiam
por inventamos alguém
para sabermos perder
perdi-te vontade de falar
nesta cadência muda

 

 

 

 

 

desenhar

 

hoje desenhei-te em memórias de palavras
o que me dizes ficou na sombra da invenção
assim aquecidas, serão esquecidas
neste desenho, vejo-te num olhar interno
tombada sobre mim mesma não te sei
também não me reconheço somos outros
desenhar de esboços cheios de salinas
dessas paisagens partilhadas no silêncio

 

 

 

as conchas

 Os sons que não ouvimos
para não sabermos
das conchas soltas
em mares e areias
de terras estranhas
tão próximas
e tão alheias
ao que nos sentenciam
nas manhãs das prosas
em cantares de vozes
aflitas do saber
que ao silêncio
nunca ficamos alheios

As conchas que nos dizem
olha o mar
parte e sente
sente a amargura da partida
e a saudade do futuro

 

 

 

 

 

por que é que

 

Por que é que o tempo passa?

Por que é que a vontade existe?

Por que é que a água não pára só?

Por que é que há as cores nas nossas peles?

Por que é que o beijo não é sempre doce?

Por que é que as nuvens se movem?

Por que é que o sol queima?

Por que é que tu me amas?

Por que é que nos esquecemos de cantar?

Por que é que o vento nos dá alegria e tristeza?

Por que é que há quereres sem futuro?

Por que é que choramos salgado?

Por que é que suamos quando sentimos calor e amor?

Por que é que bocejamos e não gostamos?

Por que é que adoro comer chocolate?

Por que é que é que há sempre solidão?

Por que é que é que me tiras o sono?

Por que é que gostamos tanto do mar?

Por que é que o corpo envelhece?

Por que é que a saliva pode ser boa e terrível?

Por que é que ler é um dos maiores prazeres?

Por que é que as palavras nos fazem sonhar?

Por que é que é que tenho de te escrever com tinta invisível?

Por que é que amanhecemos sempre diferentes?

Por que é que os aviões não nos trazem carinhos das nuvens?

Por que é que gosto do vôo dos pássaros?

Por que é que tenho cócegas infinitas?

Por que é que os sonhos são tão intensos?

Por que é que a amizade nos dá tanto prazer?

Por que é que não nos desvencilhamos do orgulho?

Por que é que a morte faz parte da vida?

Por que é que os pensamentos de amor ardem?

Por que é que os cravos tinham de murchar logo?

Por que é que a terra me abraça em cânticos?

Por que é que é que oiço a tua voz no meu peito?

Por que é que é que nascemos misteriosos?

Por que é que a cereja é tão doce de sabor e cor?

Por que é que é que penteamos o cabelo?

Por que é que é que o nosso coração palpita?

Por que é que é que só sossego a desenhar?

Por que é que é que temos de escolher?

 

 

 

escrevo para saborear as palavras

 

escrevo para saborear as palavras
letra a letra, ecoam dentro e fora
quero-as tão livres, como o olhar
no ardor de ser, sentir em tudo
olho os animais abraçados
no silêncio escutado, perene
murmúrios de carinhos imersos
nas águas onde vemos
as nossas imagens desconhecidas

 

 

 

sonho

 Escuta este sonho
não desisto do meu medo
da minha alegria
da minha amargura
não cabe a realidade
tudo me cansa
tão profundamente
quando me querem invadir
ver o mundo
mandar a realidade mudar de cheiro
deixar de me perseguir
nesta angústia de nada poder

Sonho nas noites
de dias sem tempo
acordada ou mesmo a dormir
sempre num parque
de cores caídasa
abraçadas às palavras

 

 

 

 

 

lembranças

 

Algumas lembranças beijam a luz

em jardins de flores do campo

Algumas lembranças guardam as figuras

desenhadas no papel amarelo

Algumas lembranças repousam

nos sonhos criados na varanda

Algumas lembranças são frágeis

mas sorriem como amigas

Algumas lembranças são dores

golpeadas em madeira

Outras lembranças são inventos

inventos da nossa alma

 

 

(imagens ©constança lucas)

 

 

 

Constança Lucas (Coimbra, Portugal, 1960). Desde 1978, vive em São Paulo, onde trabalha como ilustradora, professora e artista visual. Formou-se em Artes Plásticas pela FAAP–SP e é mestranda em Poéticas Visuais pela ECA-USP. Os seus poemas, os seus poemas visuais e as suas ilustrações já foram publicadas em livros, jornais e revistas. Expõe os seus trabalhos de arte desde 1982 em diversos países. Adora desenhar e é leitora voraz desde muito menina. Tem site na Internet desde 1997: http://www.constanca.lucas.nom.br. E blogue: http://constancalucas.blog.uol.com.br.

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