Pasta
dos dentes
Espremida com força arrota aromas
pegajosos
dentro da boca abraça-se em efusivas
declarações de amor
os dentes, ah os dentes já não acreditam
em promessas amorosas
o tempo evaporado, as esperas sem volta,
cheios de unhas
os dedos quase me ferida e as peles
vermelhas de raiva
sorrisos amarelos para quem passa pelo
espelho
distraída faz de conta que é de fora e
espalha ruídos
pela língua coberta de chocolate
derretido
não gosta de citar marcas, são fantasias
alheias
mas há a preferida que pode passear pelas
bochechas
minutos intermináveis de higiene com
prazer
pensa em citar vários autores fica
chique, pistas falsas
mas mastiga, mastiga, depois bochecha forte, continua a
elaborar uma lista de personagens dos
autores que leu
burila a conversa e senta-os todos num café
famoso
os dentes, perderam o colega ajuizado do
fundo
cospe a pasta de dentes e os personagens vão
pelo ralo
© Constança Lucas 2007
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