Lisboa

 

Lisboa

  

Lisboa que comigo acorda 

oiço o vento, arrebata-me para olhar o rio
esse rio tão nosso e tão azul

olho-o e mais me parece um braço de mar

na imensa paleta que nele se desenha

desenhos de encantos e invenções

dos nossos navegantes antigos e de hoje

num abraço fraterno de descobertas imensas

das dores e de alegrias

mas sempre cheios de amores

as casas com as conchas e as cordas

para sempre nos lembrar o sal

os búzios onde aprendemos a ouvir os sons de águas distantes

em fantasias marítimas que mais não são

do que as nossas músicas de ninar

embalada pela cantiga do vento

num dia de sol amarelo e laranja

passeio à beira do Tejo e

nele deposito o meu ver de quem quer encontrar

 

Sento-me e como um pastel de belém

comprei-o na fábrica ali mesmo em Belém

no meio de paredes cheias de azulejos do século XVIII

figuras e desfiguras em tons de azul,

nem sei quantas salas são, uma, duas à esquerda

três, quatro , cinco, seis à direita

e as fornadas não param de sair

lembro-me da Matilde hoje ela não veio

gostamos de tomar um moscatel e comer um pastel


sentada  perto da gigante rosa dos ventos

sinto o que é partir mais uma vez

retornar sempre, na poesia desta cidade

que me ilumina, na sua luz e nas suas sombras

 

Tempos houve que partiram para novos mundos

foram para ocuparem territórios 

fazerem fortuna, realizarem sonhos

também foram para guerrear outros povos

as mulheres portuguesas ficavam

viram os seus homens embarcarem

para novas vidas e para várias mortes

nas dores da perda e na coragem

 

Antes, há alguns séculos, na volta os que voltavam

traziam-lhes panos de novas cores

especiarias e histórias sem fim de terras fantásticas

depois, há dezenas de anos, na volta os que voltavam

traziam-lhes histórias de guerra e morte, loucuras, demências

outros houve que voltavam com histórias de novas culturas

de terra quente e fértil, horizontes maiores e regressavam

agora como emigrantes em terras de África

mais tarde expulsos da terra do sol, voltaram chorosos

nunca saberemos as suas verdadeiras histórias

certa apenas do encanto dessas longas terras africanas

muitos foram os que emigraram para a europa

américas, ásia e por esse mundo afora

somos um povo de viajantes livres e forçados

Lisboa assiste a todas as partidas

empresta-nos um dos seus mistérios

o de sabermos que voltaremos

 

 

 Subo algumas ladeiras para ir

ao castelo e dele ver os barcos

mais logo comer umas sardinhas assadas

nas festas populares

iremos dançar e sorrir

da cidade de namoros e encantos

no fado vadio que nos embala de noite

a beber um vinho

Descemos e vamos para a região ribeirinha

cheia de bares e restaurantes

passeamos à noite nas luzes e maresias

 

Esta cidade de sobe e desce

num ritmo de telhados, azulejos, pedras

praças e bancos de rua

ainda existem bebedouros

e miradouros também

Há praça que se chama das Flores

príncipe real também há

trindade e os seus bifes

sete rios e os seus animais

amoreiras e a pintora Vieira da Silva

na roma vamos à barata comprar livros

na praça de londres lemos o jornal

a av de paris levava-me a casa

também temos estradas

como da luz e a de benfica

em Belém os nossos Jerónimos

e centro cultural lindo só por dentro

a nova ponte que não vai para a índia

os cacilheiros lembram-me sempre as bolas de berlim

e as castanhas assadas

no campo grande a 111

a biblioteca nacional e um parque

nas linhas de torres vamos aos novos bairros

e a alguns mais velhos

No arieiro, não há mais areia

mas existem bons restaurantes e de peixe

na João XXI antes da praça de espanha

passeio nos jardins da gulbenkian

e o fabuloso museu que lá está assim

à nossa espera sempre ótimo

e o das janelas verdes

 

Não vou continuar neste meu desassossego

escrevo-te a ti lisboa aqui do outro lado do oceano 

certa que me ouvirás nesta canção

trago-te em mim no meu sono mais doce

na minha faceta mais inventiva

 

 Poema e desenhos - Constança de Almeida Lucas 
http://constancalucas.blog.uol.com.br/

© Constança Lucas

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