| Inventar no inventado, lembram-me do
poeta e professor Vitorino Nemésio. Encontrei-me com ele algumas vezes
na televisão portuguesa quando eu era bem pequena. Lá, sentada na
frente da TV, ouvia-o, a imagem a preto e branco cheia de gestos fantásticos
e olhares marotos, ele contava histórias da literatura, da história
da humanidade e algumas vezes lembro-me de ele falar em poesia com umas
palavras tão especiais que me marcaram para sempre. |
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Lia romances, aventuras dos cinco, dos sete e das baleias
e de tudo o que aparecia na frente. Assim, depois nos meus 12, 13 anos, a
poesia começou a ser parte integrante das minhas leituras que aconteciam
pelo prazer. Lia sentida, bebia cada palavra com paixão numa embriaguez
doce de palavras e sentimentos, lia sem grande critério, mas sempre quando
me apetecia sem censuras. Borges dizia que ler é ler sem se importar com o
quê. Com o tempo aprendemos a selecionar e a escolher, mas o importante é
o prazer na leitura, sempre me pareceu a melhor forma de ver a leitura.
Somos resultado das leituras que fazemos e dos recursos
anteriores de criação, neles fazemos as nossas invenções que nos levam
por caminhos de palavras amadurecidas apanhadas como se fossem deliciosos
frutos.
A leitura faz-se num saborear de paladares e odores, de
sentires e dores, é uma companhia repartida e sempre presente. Recriamos os
textos e imagens que lemos e relemos com o passar dos anos e assim fazem
parte das nossas vidas como o afeto dos amigos.
Sempre me fascinei ao folhear alguns livros de arte que
havia em casa dos meus pais, alguns em alemão ou inglês, mas o importante
era as fotografias de pinturas e gravuras, o meu primeiro contato com Goya,
Velasquez, Renoir, Delacroix, foi através desses livros que o meu pai tinha
na estante do escritório dele em nossa casa, à qual tinha acesso livre, e
hoje estão comigo quase todos. O impacto que produziu dentro de mim só é
igual ao que hoje tenho ao criar um poema ou uma pintura.
A minha casa e o meu atelier têm grande parte dos seus
espaços ocupados por livros que amo e convivo e sem os quais seria mais
triste viver. Não imagino o meu mundo sem um pedaço de papel para
desenhar, para escrever e para ler.
Constança de
Almeida Lucas
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